Fashion Revolution Day

A Fashion Revolution nasceu depois do colapso do complexo Rana Plaza, no Bangladesh, no dia 24 de Abril de 2013. Nesse dia morreram 1134 pessoas, e mais de 2500 ficaram feridas, quando o edifício onde funcionavam fábricas de têxteis ruiu.

Essas fábricas trabalhavam para cerca de 29 marcas de roupa internacionais, e nesse dia, o mundo ficou chocado com as condições em que essas roupas são feitas, e foi forçado a abrir os olhos para a realidade da maior parte do pronto a vestir mundial. 

A Fashion Revolution é uma organização não governamental que trabalha para que exista transparência na indústria têxtil, seja nas fábricas, ou nos campos de algodão, em todas as fases da produção de cada peça de roupa. Para que todos nós, consumidores, consigamos ver e saber como são as condições de trabalho nas fábricas, se os locais de trabalho são seguros, se os trabalhadores recebem salários justos, em que condições trabalham e em que condições vivem.

Porque a realidade é bem feia, e essa realidade só poderá mudar se quem tem o poder de o fazer, o fizer. E quem tem esse poder não são os empresários, mas sim nós, consumidores!

Porque os consumidores é que decidem o valor que cada peça de roupa tem, e o dinheiro que pagam por ela vai-se esfumando pela linha de produção atrás até chegar aos trabalhadores que recebem um salário miserável e às fábricas que são construídas de forma miserável, tudo porque quem compra quer preços cada vez mais baixos.

De cada vez que eu compro algo numa loja, esse meu gesto tem consequências em toda a linha da produção, desde a loja onde estou até à fábrica e mesmo ao campo onde foi cultivado o algodão. É preciso que cada pessoa pense nisto, e encare a sua pegada no mundo como algo real.

 Começar a encarar que os nossos actos como consumidores, impactam no mundo não é fácil. Muito mais fácil é escolher não ver, não saber, escolher a ignorância. Mas escolher querer saber e preocupar-se é muito mais gratificante e, quando se começa, torna-se cada vez mais fácil.

E como fazê-lo? Primeiro, pode-se começar por acabar com as frases habituais:

-"eu prefiro não saber essas coisas"

-"mas todas as roupas são feitas assim, por isso qualquer dia não podemos vestir nada"

-"foi tão baratinha, que se não prestar deito fora e compro outra"

O caminho continua com dar o devido valor a cada peça que se compra, desde o preço que se paga na loja até ao cuidado que se tem para que a peça dure e seja usada durante muito tempo.

Com isto começa-se a olhar para as etiquetas antes de comprar. Ver de que é feita a roupa e onde foi feita. Depois, procurar saber se essa marca mostra uma política de responsabilidade social transparente, ou se é daquelas que recusa sempre responder aos questionários e entrevistas relacionados com esse assunto.

Com toda esta informação cada consumidor, cada pessoa, consegue comprar com muito mais consciência do que está a fazer, com mais ética. Assim, quando vemos uma camisola à venda por €10 e outra por €70 devemos parar para pensar. Pensar quem é que está verdadeiramente a pagar pela camisola de €10, e olhar para a etiqueta da de €70 e tentar perceber se aquele dinheiro vai de facto ser distribuído de forma justa pela cadeia de produção, ou não.

Porque deixar de comprar roupa de pronto a vestir não é a solução, a solução é exigir transparência e condições de trabalho e vida justas.

 

Eu sou um exemplo disto. Apesar de fazer roupa para mim e para os meus filhos, o meu guarda-roupa ainda tem maioritariamente roupa comprada em lojas de pronto a vestir. E continuo, e vou continuar, a comprar roupa nas lojas. Só que de cada vez que compro algo penso em tudo isto, e tenho plena consciência do que estou a fazer.

Tento comprar primeiramente em marcas feitas em Portugal ou na Europa, mas também compro noutras quando preciso. Como na semana passada quando comprei calças de ganga da Vertbaudet para o meu filho. Porquê e como comprei:

- comprei 3 pares, que é o número exacto que ele precisa para durante a semana, porque os outros 2 dias são de ginástica, e estar a lavar roupa todos os dias não é realista.

- são calças muito resistentes, que sei que não se vão rasgar ao fim de um mês, por isso vão durar até deixarem de servir em tamanho (as que comprei há mais de um ano ainda resistem, só que ele cresceu e já não servem)

- são as que melhor lhe assentam no corpo. Foram baratas e são feitas no Bangladesh, ou na Índia, ou na China (só vou ver quando a encomenda chegar), mas se custassem o dobro do preço eu teria comprado na mesma.

E porque é que não lhe fiz eu as calças, perguntam vocês? Porque o meu filho precisa de calças mesmo indestrutíveis, e precisa já, e eu ainda não encontrei um molde ou a maneira de lhe fazer calças assim. Hei-de lá chegar, e aí passo eu a fazê-las, mas neste momento, para o grande trabalho que me íam dar, não íam compensar.

Por isso, o segredo é: comprar com consciência, dar valor, cuidar.

Num destes dias, numa reportagem, um director de uma fábrica dizia "if consumers care, they have to put their money where their mouth is". Esta é a realidade.

O meu lema hoje em dia é "de cada vez que gastamos dinheiro, estamos a votar no tipo de mundo que queremos ter".

Assim, hoje eu também mostrei as etiquetas das minhas roupas e perguntei às marcas "Who made my clothes?" Devemos fazê-lo hoje e todos os dias do ano. Tal como todas estas pessoas: https://www.instagram.com/explore/tags/whomademyclothes/

E sabem que mais? Se perguntarmos, eles respondem! :-)


Older Post Newer Post


  • Joana d'Orey on

    Maravilhoso post! Obrigada por tê-lo escrito!
    Penso exactamente assim.


Leave a comment

Please note, comments must be approved before they are published